In­vest­ment Traf­fic Lights Maio 2026

07/05/2026

Os Investment Traffic Lights mensais oferecem uma análise detalhada do mercado e a nossa visão sobre a evolução das principais classes de ativos

EM RESUMO

  • Abril foi marcado por um forte ressalto dos mercados acionistas, impulsionado pela perceção de uma redução dos riscos e por sólidos resultados empresariais do primeiro trimestre.
  • Em contrapartida, foi um mês difícil para as obrigações e para o ouro, num contexto inflacionista, com o preço do petróleo muito acima dos níveis anteriores à guerra.
  • Consideramos que as perspetivas de curto prazo serão determinadas pela evolução de dois fatores: o até agora imparável rali da inteligência artificial nos Estados Unidos e o bloqueio continuado do Estreito de Ormuz.
Chefanlagestratege Vincenzo Vedda

Vincenzo Vedda

Chief Investment Officer

image

In­di­ce

1. Perspetivas de Mercado

1.1 A névoa da guerra face à solidez dos resultados


O conhecido ditado sobre o tempo em abril pode aplicar‑se este ano também aos mercados e à política: prevaleceu uma notável imprevisibilidade. No conflito com o Irão, foram traçadas múltiplas linhas vermelhas e emitidos ultimatos que pouco depois perderam relevância. Pelo menos foi alcançado um cessar‑fogo, que até ao momento se tem mantido razoavelmente estável. No entanto, em paralelo, o bloqueio do Estreito de Ormuz intensificou‑se quando os Estados Unidos decidiram impedir o trânsito de navios com ligações ao Irão. Esta circunstância voltou a exercer pressão sobre o preço do petróleo, que regressou a níveis próximos dos seus máximos recentes. Como resultado, as rendibilidades das obrigações voltaram a subir, reduzindo assim a margem de manobra dos bancos centrais para cortar as taxas de juro.

A Reserva Federal dos Estados Unidos também pareceu afastar‑se dos esquemas tradicionais. Jerome Powell rompeu com a prática habitual ao manter‑se como governador da Fed, apesar de estar próximo de ceder a presidência a Kevin Warsh, com o objetivo de reforçar a independência da instituição face às flutuações políticas da atual Administração norte‑americana.

Enquanto o conflito com o Irão continuava a condicionar os mercados de dívida pública e de energia, os mercados acionistas seguiram uma dinâmica bem conhecida: subir. Nos últimos anos, esta tem sido a reação predominante após episódios de correção, o que reforçou entre investidores e operadores a perceção de que “comprar nas quedas” tende a ser rentável. Esta tendência assenta, quer na expectativa de uma intervenção dos bancos centrais em caso de tensões graves, quer na convicção de que mercados bolsistas sólidos são um fator relevante para a política económica dos Estados Unidos.

A época de resultados foi o principal catalisador do forte rali registado em abril, mesmo num contexto de elevada incerteza geopolítica. Mais de um terço das empresas europeias e mais de metade das principais empresas norte‑americanas já apresentaram os seus resultados, gerando um otimismo significativo entre os analistas, que reveram substancialmente em alta as suas previsões de lucros para o exercício. O consenso estima agora um crescimento dos resultados em 2026 de 15 % em termos homólogos na Europa e de 20 % nos Estados Unidos, face aos 13 % e 14 %, respetivamente, projetados no início do ano. Na Europa, esta melhoria explica‑se quase exclusivamente pelo setor energético, enquanto nos Estados Unidos o setor tecnológico constitui uma fonte adicional de robustez.

No setor tecnológico, os planos de investimento em capital estão a crescer a um ritmo ainda mais elevado do que os próprios resultados. No final do outono passado, o consenso assumia que a maior parte do ciclo de investimento em centros de dados ocorreria em 2025, com um crescimento mais moderado em 2026. No entanto, as estimativas atuais apontam para um aumento do capex entre 50 % e 100 %. Em termos absolutos, espera‑se que os seis maiores hyperscalers norte‑americanos invistam em conjunto mais de 700 mil milhões de dólares este ano, contribuindo de forma significativa para o volume agregado de investimento e para o crescimento económico.

Em conjunto, pode afirmar‑se que, durante o mês de abril, os “bits e bytes” — a inteligência artificial — se impuseram às “moléculas” — o petróleo —, pelo menos do ponto de vista dos mercados bolsistas. No entanto, na economia real subsistem riscos relevantes, sendo provável que, durante os meses de verão, voltem a surgir tensões no aprovisionamento de determinadas matérias‑primas.

1.2 Duas realidades opostas: a renda variável avança com força, enquanto obrigações e matérias‑primas desenham um cenário distinto

Durante o mês de abril foram alcançados vários marcos históricos, nem todos necessariamente favoráveis para os investidores. A renda variável foi, sem dúvida, a grande beneficiada. O índice S&P 500 registou uma valorização de 10,5 %, o seu melhor desempenho mensal desde novembro de 2020. Os mercados emergentes apresentaram um desempenho ainda mais sólido: o índice MSCI Emerging Markets avançou 14,7 %, apoiado por uma moderação das tensões geopolíticas e pelo forte ressalto do setor dos semicondutores, refletido no expressivo aumento de 38,4 % do índice Philadelphia Semiconductor (SOX).

Para os investidores em obrigações, o mês foi consideravelmente menos favorável. Nos últimos dias de abril, a rendibilidade da obrigação soberana japonesa a 10 anos subiu para níveis não observados desde 1997, ultrapassando os 2,5 %. No Reino Unido, as rendibilidades das gilts a 10 anos superaram os 5 %, atingindo o nível mais elevado desde 2008, enquanto a rendibilidade do Bund alemão a 10 anos subiu para 3,11 %, um nível visto pela última vez em 2011.

Os investidores em ouro também não encontraram motivos de satisfação. Após um mês de março particularmente negativo, em que o preço do metal precioso caiu 12 %, o ouro continuou a mostrar fragilidade em abril, com uma descida adicional próxima de 1 %.

Ainda assim, o principal foco de atenção manteve‑se no mercado do petróleo. A 17 de abril, o barril de Brent chegou a ser negociado intradiariamente em torno dos 86 dólares; no entanto, no final do mês, a 30 de abril, o seu preço situava‑se nos 126 dólares. Embora antecipemos uma correção dos preços para o final do primeiro trimestre do próximo ano, esperamos que estes se mantenham acima dos níveis anteriormente previstos. No mercado de futuros, o Brent com vencimento em março de 2027 negoceia atualmente em torno dos 85 dólares por barril, face aos 76 dólares registados no início de abril.

2. Perspetivas e Alterações

Em meados de maio serão definidas as novas previsões estratégicas a 12 meses no âmbito da reunião trimestral de estratégia de investimento da DWS. Nesta edição, a análise centra‑se no curto prazo, claramente condicionado pelo conflito com o Irão. O caso da Coreia do Sul ilustra bem até que ponto um posicionamento precipitado após a eclosão de um conflito pode ser contraproducente. No início de março, o índice bolsista Kospi chegou a perder cerca de um quinto do seu valor; a Coreia do Sul depende fortemente das importações de petróleo provenientes da região do Golfo. Posteriormente, o índice evoluiu de forma lateral durante o mês de março, num contexto de elevada volatilidade, antes de registar, em abril, um ressalto de 40 % impulsionado pela temática da inteligência artificial. Em ambientes de volatilidade extrema como este, o risco de adotar um posicionamento incorreto é significativo.

As questões com que os investidores se deparam são relativamente fáceis de formular, mas complexas de responder. Deve o mercado “olhar para além” da incerteza das próximas semanas e assumir uma normalização progressiva da situação no Golfo? Ou será mais prudente avaliar com maior cautela a probabilidade real de uma reabertura do Estreito de Ormuz? Os diferentes objetivos das três partes envolvidas no conflito indicam que a probabilidade de uma reabertura a curto prazo poderá ser limitada. O Irão constatou que o bloqueio do Estreito de Ormuz constitui uma ferramenta de pressão altamente eficaz e tem poucos incentivos para confiar nos Estados Unidos ou em Israel, após ter sido atacado em duas ocasiões em plena fase de negociações. Israel, por seu lado, mantém um claro interesse estratégico na destruição profunda das capacidades operacionais do Irão. Ao mesmo tempo, a Administração norte‑americana dificilmente poderá retirar‑se sem ter alcançado algum objetivo tático ou estratégico reconhecível, embora tenha de ter em conta o impacto político interno, especialmente tendo em vista as eleições intercalares e o potencial efeito de um ressurgimento da inflação, resultante de um conflito prolongado, sobre as perspetivas do Partido Republicano.

O cenário de um congelamento não oficial do conflito está a ganhar relevância; no entanto, com o Estreito de Ormuz fechado, é difícil considerar esta situação como um equilíbrio. Isto é assim mesmo tendo em conta que, de acordo com modelos recentemente publicados pelo Banco Mundial, as estratégias de desvio poderiam reduzir o défice de oferta através de Ormuz de cerca de 20 milhões de barris por dia para aproximadamente 5 milhões. A Agência Internacional da Energia (AIE) estima um défice de oferta de 3,7 milhões de barris por dia no segundo trimestre, o que constituiria o maior desequilíbrio de oferta alguma vez registado. Ainda assim, a AIE assinala que esta situação poderia inverter‑se para um excedente já no terceiro trimestre, caso o estreito reabrisse. No contexto atual, contudo, o encerramento representa um choque de oferta de grande magnitude. Neste momento, tanto o Irão como os Estados Unidos mantêm bloqueado o Estreito de Ormuz. Enquanto no início do ano o barril de Brent era negociado em torno dos 60 dólares, a 30 de abril os preços intradiários ultrapassaram os 125 dólares.

No conjunto das classes de ativos, os mercados encontram‑se envolvidos num delicado exercício de equilíbrio entre dois cenários opostos: uma reabertura rápida versus um encerramento prolongado. Os mercados acionistas apresentaram um posicionamento claramente otimista, apoiados por resultados empresariais surpreendentemente sólidos e pela convicção de que os resultados das empresas norte‑americanas serão pouco afetados pelo conflito. Em contrapartida, os mercados de matérias‑primas e de obrigações mantêm uma atitude mais prudente. Consideramos que a renda variável conta com um apoio significativo decorrente das perspetivas económicas a médio prazo e do crescimento dos lucros, embora as valorizações possam ser pressionadas caso as taxas de inflação e as rendibilidades obrigacionistas não consigam estabilizar.

2.1 Renda Fixa

A renda fixa foi muito mais afetada do que a renda variável pela guerra no Irão. O forte aumento dos preços do petróleo constitui uma preocupação relevante para os bancos centrais. Consideramos que a Reserva Federal irá adiar os cortes das taxas de juro: continuamos a esperar duas reduções, mas é possível que estas já não ocorram em 2026.

Por seu lado, o Banco Central Europeu (BCE) comunicou recentemente que está agora mais inclinado para subidas de taxas do que para cortes, com o objetivo de manter ancoradas as expectativas de inflação. Qualquer uma das próximas reuniões do BCE poderá resultar numa subida das taxas de juro. Ainda assim, continuamos a antecipar, de um modo geral, uma descida das rendibilidades obrigacionistas num horizonte de 12 meses.

No que respeita às obrigações corporativas, mantemos uma abordagem seletiva e uma posição neutra, dado que os spreads voltaram a situar‑se em níveis muito comprimidos.

Obrigações governamentais

Divididos entre as expectativas de um cessar‑fogo permanente e a possibilidade de o Estreito de Ormuz permanecer fechado, os mercados de taxas de juro estão a registar uma elevada volatilidade. Nos Estados Unidos, a política monetária continua restritiva e o recente aumento das rendibilidades tornou as condições financeiras mais restritivas. Passámos para uma posição Neutra nas obrigações do Tesouro norte‑americano a 10 anos, com um viés para regressar a uma visão positiva, enquanto mantivemos uma posição positiva nos vencimentos a 2 anos em permanência.

No caso dos Bunds alemães, preferimos os vencimentos mais longos, a 10 e 30 anos, que melhorámos recentemente. Em simultâneo, reduzimos a nossa visão sobre os vencimentos a 2 anos de positiva para neutra, tendo em conta a inclinação do BCE para subir as taxas de juro. Também reduzimos a nossa posição nas obrigações japonesas a 10 anos para Neutra. Embora o Banco do Japão (BoJ) tenha decidido manter a sua política inalterada na reunião de abril, a surpresa resultou do facto de três membros terem votado a favor de uma subida das taxas, transmitindo uma mensagem claramente restritiva ao mercado. No seu cenário central, o BoJ reviu em baixa as suas perspetivas de crescimento devido às restrições de oferta no Médio Oriente e aumentou as suas expectativas de inflação. O ciclo de subidas deverá ser retomado assim que os dados ofereçam maior clareza.

Obrigações corporativas

Mantemos praticamente inalterada a nossa visão sobre as obrigações corporativas, em Neutro. Após as primeiras conversações de cessar‑fogo no início de abril, os spreads voltaram a estreitar para níveis próximos de mínimos históricos, tanto nos Estados Unidos como na Europa. De igual modo, a atividade de novas emissões reativou‑se após um breve período de incerteza, com uma procura robusta que proporciona um enquadramento favorável. Ainda assim, as valorizações são exigentes, pelo que mantemos uma posição Neutra.

Mercados emergentes

Nos mercados emergentes, os spreads soberanos estreitaram rapidamente, replicando em grande medida o comportamento do crédito dos mercados desenvolvidos, apoiados por fatores técnicos sólidos e por uma resiliência seletiva. No entanto, as valorizações ajustadas já limitam o potencial adicional, o que justifica uma atitude prudente e uma posição Neutra. O crédito asiático é apoiado por fatores técnicos favoráveis e por compras em correções centradas no grau de investimento; os spreads mantiveram‑se dentro de um intervalo limitado, com uma resiliência seletiva. Uma vez que o otimismo de curto prazo parece já amplamente refletido nos preços e subsistem riscos em baixa decorrentes de um conflito prolongado, consideramos adequado manter uma posição Neutra.

Divisas

Mantemos uma visão Positiva sobre o euro face ao dólar norte‑americano. A moeda europeia valorizou‑se à medida que a deterioração do sentimento e a redução da procura do dólar como ativo de refúgio compensaram os riscos geopolíticos. O encarecimento da energia está a atuar cada vez mais como um entrave aos fluxos de capital para o dólar, em vez de um fator de apoio.

2.2 Ações

A época de resultados do primeiro trimestre está a evoluir de forma muito positiva em ambos os lados do Atlântico; ainda assim, introduzimos alterações nas nossas preferências geográficas. A Europa encontra‑se mais exposta às preocupações com o abastecimento decorrentes da guerra no Irão, enquanto o mercado norte‑americano está a beneficiar de forma extraordinária do forte aumento do investimento em capital (capex) associado à inteligência artificial. Por este motivo, reduzimos a nossa visão sobre a Europa para neutra e, em paralelo, melhorámos a dos Estados Unidos para neutra.

Para além de perspetivas de lucros mais favoráveis, a renda variável norte‑americana beneficia também de um vento de cauda adicional decorrente de possíveis cortes de taxas por parte da Reserva Federal, ainda que estes possam apenas materializar‑se em 2027. Na área do euro, pelo contrário, as subidas de taxas tornaram‑se agora mais prováveis. Na ausência de uma nova escalada militar no Golfo, consideramos que a renda variável poderá continuar a beneficiar do sólido contexto de resultados empresariais. No entanto, as restrições de oferta resultantes da guerra no Irão poderão começar a refletir‑se de forma mais visível nas vendas e nos resultados das empresas durante o segundo e o terceiro trimestre. Além disso, as valorizações voltam a ser exigentes, não só nos setores das tecnologias de informação e comunicações, mas também em muitas empresas industriais e de materiais, estreitamente ligadas ao capex em inteligência artificial.

A nível setorial, prestamos especial atenção às empresas com exposição a segmentos da inteligência artificial onde subsistem estrangulamentos de oferta. Reduzimos a nossa visão sobre o setor energético de positiva para neutra, após o forte desempenho do setor petrolífero na sequência do encerramento do Estreito de Ormuz. No caso das empresas de energia fóssil, consideramos que tanto os riscos em alta como em baixa associados a um encerramento prolongado ou a uma reabertura gradual do estreito estão já razoavelmente refletidos nos preços. Em contrapartida, os fornecedores de energias renováveis poderão continuar a beneficiar da mudança estrutural da procura.

2.3 Alternativos

Ouro

Mantemos uma visão estratégica positiva sobre o ouro. Diversos fatores estruturais, como as compras por parte dos bancos centrais e as preocupações em torno do dólar norte‑americano, deverão continuar a sustentá‑lo. Do ponto de vista tático, no entanto, o bom desempenho da renda variável e o aumento das rendibilidades podem limitar um maior potencial de valorização.

Petróleo

A curto prazo, esperamos que os preços da energia se mantenham elevados, dado que mais de 10 % da produção mundial de petróleo continua fora do mercado. A capacidade de refinação também foi reduzida. Danos adicionais na capacidade de refinação na Rússia estão a restringir as exportações e a agravar as tensões de abastecimento nos países dependentes da importação de produtos petrolíferos.

A OPEP+ acordou aumentar a sua quota de produção em 188 000 barris por dia a partir de junho, e os Emirados Árabes Unidos anunciaram a sua saída da OPEP, o que deverá contribuir para melhorar a oferta de crude uma vez terminado o conflito. Esperamos que os preços do petróleo se mantenham elevados durante algum tempo e que, posteriormente, o aumento da oferta após o fim do conflito com o Irão favoreça uma rápida reposição das reservas mundiais de crude.

3. Rentabilidade passada dos principais ativos financeiros

Rentabilidade total dos principais ativos financeiros no que respeita ao acumulado do ano e ao último mês.
Tarifas

image

teaser blocks